A ENDOMETRIOSE E O CASAL

O papel da mulher na sociedade atual está intrinsecamente ligado a conceitos como liberdade, autonomia, reconhecimento pessoal e profissional. No decorrer das últimas décadas, a posição desta dentro do próprio casamento ou na relação a dois alterou-se de forma muito significativa. Hoje temos, indiscutivelmente, mulheres ativas, com voz, com poder, com formação, deixando para trás uma história de episódios de subordinação e de dependência.

No entanto, esta vida de sonho, com uma mulher que tem hoje um papel bem diferente do que tinha há uns anos atrás, nem sempre é uma vida perfeita. Em plena lua-de-mel (entenda-se primeiros anos de casamento) supõe-se que tudo na relação funcione de forma perfeita. Descobre-se a vida a dois, fazem-se planos para o futuro e sonha-se com os filhos. No entanto, é muitas vezes neste contexto que surge a endometriose, começando por afetar o bem-estar diário das suas portadoras, a evolução desta doença provoca consequências muito diversas.

Dentro da complexidade que caracteriza a Endometriose enquanto doença crônica, uma das temáticas mais relevantes, mas frequentemente pouco explorada em termos de investigação, tem a ver com o impacto emocional desta patologia. Grande parte dos estudos recentes sobre os efeitos “colaterais” da Endometriose a nível emocional acabam por centrar-se na mulher portadora da doença, e não tanto no casal, muito embora estes desempenhem um papel fundamental em todo o processo.

Qualquer casal que lide com a Endometriose é necessariamente confrontado com a (maior ou menor) perda da qualidade de vida a dois, quer em questões mais “corriqueiras” do dia-a-dia (menos idas ao cinema ou a um restaurante, impossibilidade de viajar, dificuldade em dividir tarefas domésticas, menos convívio com familiares e amigos), quer em aspectos relacionados com a sexualidade, com os quais nem sempre se consegue lidar.

Como se sabe, alguns dos sintomas normalmente associados à doença podem condicionar, de forma muito significativa, o quotidiano do casal, sobretudo na sua vertente mais íntima. Se juntarmos a tudo isto a dificuldade, ou impossibilidade, de conceber filhos biológicos, o impacto numa relação pode ser demasiado. Vivenciar um relacionamento a “três”, com a Endometriose como entrave constante, pode levar a diferentes reações. Em alguns casos, as questões acima referidas podem ser demasiado fracturantes e levar ao final da relação e, noutros casos, pode acontecer precisamente o contrário, e a relação sair ainda mais fortalecida de toda esta experiência.

Na abordagem desta temática, tem-se falado sobretudo sobre os efeitos psicológicos da Endometriose sobre as mulheres portadoras da doença. Estudos recentes (Bennie, 2010; Denny & Mann, 2007; Denny, 2009) destacam que a menor disponibilidade física e mental de muitas mulheres para a vida familiar, doméstica e sexual, resultante de sintomas como a dor pélvica, a fadiga crônica ou a dispareunia, pode conduzir a sentimentos de ansiedade, baixa autoestima ou medo de perder os companheiros.

Algumas das mulheres entrevistadas no âmbito destes estudos e que sofriam de dispareunia confidenciaram que, na sua vida íntima, tendiam a evitar qualquer tipo de intimidade sexual e, em alguns casos, acabavam por esconder, dos próprios companheiros, a dor que sentiam durante a atividade sexual.

Nos casos em que existe infertilidade associada à Endometriose, é frequente haver também referências à forte pressão social e familiar para ter filhos e ao sentimento de culpa que daí pode advir, nomeadamente a sensação de se ter falhado como mulher. E os homens? Como será que se sentem em todo o processo?

Num dos poucos estudos exclusivamente centrado sobre “a outra face da moeda”, Fernandez et al. (2006) entrevistaram companheiros de mulheres portadoras de Endometriose, e concluíram que os homens experienciam dor, frustração, negação, raiva e impotência face ao sofrimento de quem mais amam. Num mundo onde o papel do homem numa relação a dois ainda é caracterizado por muitos estereótipos, os entrevistados admitem que nem sempre é fácil lidar com as emoções acima referidas, mas são unânimes ao afirmar que vivenciar uma situação como esta os tornou mais maduros emocionalmente.

Fernandez et al. (2006) constatam também, que os participantes no estudo demonstram uma admiração pelas respectivas companheiras. Mais do que cuidar delas, parecem apoiá-las, vendo-as como mulheres independentes, corajosas e fortes. Existem igualmente alguns estudos, centrados especificamente no casal e no impacto da Endometriose na vida a dois.

Um dos mais interessantes teve lugar em 2007: depois de entrevistarem 13 casais norte-americanos onde a mulher era portadora de Endometriose, Strzempko Butt & Chesla identificaram cinco tipos de padrões relacionais:

a) Juntos, mas sozinhos: neste tipo de padrão, cada membro do casal tem um forte sentido de si próprio, assim como ideias muito definidas (e nem sempre coincidentes) sobre vários aspectos da vida. Neste caso, a pessoa que está doente sente uma falta de aceitação dessa mesma doença por parte do parceiro e sente-se, por isso, sozinha e isolada no seu sofrimento. Enquanto quem está doente procura aceitar e incorporar a doença no seu quotidiano, o parceiro saudável continua a agir como se tudo não passasse de algo temporário, pensando que o nascimento de um filho ou outra “cura” poderão aliviar os sintomas da pessoa doente. Em suma, cada um agarra-se às respectivas crenças, vivendo juntos, mas simultaneamente sozinhos, cada um no seu mundo.

b) Combatem a Endometriose juntos: neste tipo de padrão, a Endometriose surge como um inimigo comum e o casal direcciona todas as suas energias para essa batalha. Neste caso, o parceiro saudável tende a assumir todas as tarefas domésticas sem queixas nem ressentimentos sempre que necessário, e procura assumir uma postura activa, ajudando a companheira no processo de tomada de decisões mais complexas (a realização de uma histerectomia, por exemplo). O facto de lutarem juntos contra a doença acaba por fortalecer a relação.

c) Unidos pela incapacidade: neste padrão, os dois membros do casal sofrem de algum tipo de doença crônica e/ou incapacitante, existindo, na vida a dois, espaço e respeito pelos problemas de saúde de cada um. Ambos demonstram uma enorme coragem e vontade de ultrapassar as adversidades, centrando-se mais nas capacidades de cada um do que nas limitações. Existe uma grande flexibilidade de cada membro do casal em se adaptar à doença do/a companheiro/a e respectivos sintomas.

d) Assoberbado pela prestação de cuidados: neste padrão, o parceiro saudável dá prioridade total aos cuidados a prestar à pessoa doente, colocando os seus interesses pessoais e profissionais em segundo plano. Neste caso, o parceiro saudável assume o papel de protector e os cuidados que presta permitem à pessoa doente ter uma vida um pouco mais funcional, o que seria praticamente impossível sem esse apoio. Poderão existir cuidados ritualizados em actividades do dia-a-dia, como ajudar a vestir e a calçar, a tomar banho, etc.

e) Empenhados no cuidado mútuo: neste padrão, contrariamente ao anterior, há uma aceitação e integração mútua da doença no quotidiano do casal (por exemplo, ambos podem seguir um determinado regime alimentar que seja mais benéfico para a pessoa doente). O parceiro saudável participa activamente na prestação de cuidados, mas esse não é o seu principal contributo na relação. A pessoa doente procura autonomamente ajuda de diferentes especialistas e tenta não depender exclusivamente do companheiro. Existe uma flexibilidade do envolvimento do parceiro saudável: quando a companheira está pior, ele está empenhado em tudo o que é necessário; no entanto, assim que esta retoma a capacidade de cuidar de si própria, ele deixa de ter um papel tão ativo e regressa às suas responsabilidades profissionais.

Embora seja, inegavelmente, um dos aspectos mais importantes da vida a dois, a intimidade sexual nem sempre é abordada de forma clara entre o casal que vivencia a Endometriose e, em resultado disso, surgem focos de tensão que podem levar ao desmoronamento de muitas relações. Segundo a investigadora Christy Benny (2010), o facto de algumas mulheres ocultarem a dor que sentem durante a relação sexual pode resultar num distanciamento inconsciente, que pode ser entendido pelo outro como rejeição. Benny defende, por isso, um diálogo sincero entre o casal, sobretudo nos casos em que a dispareunia faz parte dos sintomas da Endometriose.

Uma outra questão importante é que o tema da sexualidade raramente é abordado nas consultas médicas, ou por falta de tempo, ou, sobretudo, por desconforto de um dos membros do casal ou de ambos. Deste modo, Strzempko Butt & Chesla (2007) defendem que deve ser dada maior atenção a essa temática em contexto de consulta, recomendando ainda que os prestadores de cuidados de saúde informem devidamente o casal sobre possíveis efeitos secundários que possam afectar a vida sexual e que resultem de algum tipo de tratamento médico ou cirúrgico.

Estas autoras, assim como Fernandez et al. (2006), defendem que, sempre que possível, os companheiros devem estar presentes em consultas, exames médicos ou noutros procedimentos clínicos, já que um parceiro mais informado será tendencialmente uma pessoa mais atenta e compreensiva e pode ter um papel mais activo em decisões futuras; por outro lado, os cuidados de saúde ao nível do acompanhamento psicológico não deverão limitar-se às mulheres portadoras de Endometriose, devendo igualmente ser alargados a quem com elas partilha esta luta.

Os estudos demonstram que existem ainda algumas barreiras a ultrapassar pelo casal, mas um diálogo franco e sem tabus pode contribuir decisivamente para uma caminhada menos difícil. Para quem sente na primeira pessoa o impacto desta doença, o apoio e a compreensão da sua cara-metade revela-se fundamental e imprescindível, não só para melhor suportar a dor, mas também para a superar e reunir forças para resolver o problema. A mulher, que antes era perfeitamente autónoma, dinâmica e ativa, vê agora as suas capacidades limitadas, ficando, por isso, numa posição mais fragilizada.

O apoio de quem está mais próximo é realmente muito importante. Neste sentido o casal necessita de uma grande capacidade de discernimento, de compreensão mútua, de manter o espírito positivo e a chama do sentimento acesa para que a relação possa continuar a funcionar. Alguns sonhos podem não ser concretizados? Há outros, certamente, à nossa espera. E são muito mais saborosos quando vividos a dois...

Fonte: MulherEndo



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