ATAQUE À ENDOMETRIOSE SEM AGREDIR A PACIENTE

Doença que afeta a vida de 10% das mulheres do mundo, a endometriose é hoje uma das principais causas de transtorno na saúde ginecológica feminina. Por outro lado, tem sido mais diagnosticada, conforme se discutiu no último fim de semana durante o 12º Congresso Mundial de Endometriose, em São Paulo, onde foram apresentadas novidades que podem ajudar a por fim a este sofrimento. 

Realizado pela primeira vez no Brasil, o evento teve por objetivo promover a troca de experiência clínica e científica para o avanço no combate a endometriose. 

Uma nova técnica foi apresentada no congresso. Ela se vale de um dispositivo de dissecção ultrassônica sem fio, denominado Sonicision, que ajuda o cirurgião a separar os tecidos comprometidos sem a necessidade de suturar, cortando e cauterizando a parte indesejada com o calor do ultrassom, de forma minimamente invasiva, por laparoscopia (cirurgia por vídeo). 

"Indicado para tratar a endometriose profunda, o aparelho faz a ressecção do tecido doente. Deve ser feito com cuidado, para preservar a integridade do órgão, ou seja, cortar com rapidez e controlar o calor do aparelho cirúrgico, para não lesionar o órgão no qual o tecido está aderido", explica o ginecologista Paulo Ayroza, especialista em endometriose profunda, de São Paulo. 

O ginecologista José Luis Crivellin, de Rio Preto, que já utiliza a técnica, observa que essa é uma tecnologia que, na verdade, já existia, mas passou por algumas melhorias. "A novidade é a versão sem fio, com bateria e gerador acoplados à pinça, sem necessidade de fios. Para as pacientes, a vantagem é diminuir a morbidade cirúrgica, com menor tempo cirúrgico, menos dor no pós-operatório e um retorno antecipado às atividades normais", diz. 

Livre da endometriose há cinco anos, a professora Leslie de Arruda, 38 anos, comemora o fato de ter conseguido engravidar, após anos tentando se livrar do problema. "Fui para São Paulo para fazer a cirurgia, pois já não sabia mais o que fazer. Ainda bem que tudo correu bem e consegui engravidar da minha filha, que já está com dois anos", diz. 

‘Anomalia’ fora do útero 

"A endometriose é uma doença benigna que se caracteriza pelo crescimento anormal de tecido endometrial fora do útero, sob a forma de retalhos, nódulos, lesões ou tumores", explica o ginecologista Luiz Fernando Gonçalves Borges, de Rio Preto. Segundo o ginecologista Rui Ferriani, presidente da Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE), a endometriose pode acontecer desde a primeira menstruação. 

Em um dos estudos apresentados no congresso em São Paulo, os profissionais observam que a presença da doença em adolescentes ainda é desconhecida. No entanto, quando a mulher passa por laparoscopia, chega a se verificar que 50% delas são vítimas da endometriose. Dentre as causas mais frequentes estão o histórico familiar e as malformações genitais. 

O ginecologista rio-pretense explica que a endometriose pode comprometer ovários, trompas de falópio, os ligamentos que sustentam o útero, bexiga e intestino grosso. "Como são tecidos originados do útero, os retalhos ou nódulos característicos da endometriose estão sujeitos, tanto quanto o endométrio, à influência do ciclo hormonal e ao sangramento caraterístico da menstruação", diz. 

"Começam aí os principais sintomas da doença, pois o sangue produzido fora do útero não tem por onde sair: o resultado é a degradação do sangue e dos retalhos de tecido endometrial dentro do organismo, o que leva a inflamação, dor, formação de cistos e infertilidade", completa. 

ENTREVISTA

O ginecologista Luiz Fernando Gonçalves Borges, de Rio Preto, convidado pelo Diário da Região, para falar sobre as principais novidades apresentadas no 12° Congresso Mundial de Endometriose, ocorrido em São Paulo, de 30 de abril a 3 de maio, explica que entre as principais novidades, está o fato da doença estar a cada dia sendo diagnosticada mais rápido, e não especificamente por ginecologistas, uma vez que tem um caráter multidisciplinar. Uma vez, que pode acometer outros órgãos tipo intestino (proctologista), bexiga e ureter (urologista), entre outros. Além disto, o médico observa que muitas vezes o tratamento é mesmo cirúrgico e requer a ressecção das alças do intetino, bexiga, etc. Daí, a cirurgia ser feita por videolaparoscopia, o que permite incisões menores com melhor efeito estético. "A recuperação pós operatória é mais tranquila, também", diz. 

Outra novidade, é o fato de estar em andamento o tratamento cirúrgico feito por meio de robótica. Embora seja uma tendência de médio prazo devido a curva de aprendizado. E, nos casos mais simples, o indicado é mesmo a suspensão da menstruação. "Foi mostrado muitos tratamentos medicamentoso com substâncias auxiliares naturais, tipo extrato de picnogenol, que na verdade é um antioxidante", diz. Abaixo, mais informações sobre o assunto, acompanhe: 

Endometriose 

É uma doença benigna que se caracteriza pelo crescimento anormal de tecido endometrial fora do útero, sob a forma de retalhos, nódulos, lesões ou tumores. Afeta 10% das mulheres durante a idade reprodutiva e pode levar a infertilidade. 

Os locais mais comuns do crescimento anormal do endométrio (originalmente o tecido que reveste internamente o útero) são os ovários, as trompas de falópio, os ligamentos que sustentam o útero, a bexiga e o intestino grosso. Como são tecidos originados do útero, os retalhos ou nódulos característicos da endometriose estão sujeitos tanto quanto o endométrio à influência do ciclo hormonal e ao sangramento caraterístico da menstruação. Começam aí os principais sintomas da doença, pois o sangue produzido fora do útero não tem por onde sair e o resultado é a degradação do próprio sangue e dos retalhos de tecido endometrial dentro do organismo, o que leva a inflamação, dor, formação de cistos e a infertilidade. 

Causas 

Embora não se saiba exatamente a causa da endometriose, fatores ambientais e dieta alimentar, são considerados os principais suspeitos. Compostos químicos organoclorados, usados na agricultura, são apontados em estudos científicos recentes como fatores importantes para o desenvolvimento da endometriose e outras doenças femininas dependentes de estrogênios como os miomas e uma variedade de tipos de câncer nos órgãos reprodutivos. 

Outra teoria que tenta explicar a origem da endometriose é a da menstruação retrógrada, que faz com que parte do tecido menstrual retorne para os órgãos reprodutivos como as trompas de falópio e se implante na cavidade abdominal para crescer, em seguida. 

É comum o retorno de tecido menstrual em algumas mulheres, mas também é normal que o sistema imunológico elimine o corpo estranho, a não ser quando há algum problema hormonal ou de deficiência nas próprias defesas do organismo. São nessas condições que o tecido menstrual consegue "criar raízes" e crescer como endometriose. Outra explicação para a origem da doença é a teoria embólica, segundo a qual o tecido endometrial migraria do útero para outras partes do organismo feminino através do sistema linfático ou vascular. Não está descartada a influência dos genes no desenvolvimento a endometriose ou de que certas famílias trariam a predisposição genética para desenvolver a doença. 

Sintomas 

Dor antes e durante o período menstrual, muito mais forte do que a cólica menstrual normal, além de dor durante a relação sexual e sangramento irregular e intenso. Outros sintomas comuns são fadiga e menstruações, acompanhadas de cólicas intestinais, dor nas costas, diarreias ou constipação intestinal seguida de mal estar. Quando a bexiga é afetada, pode ocorrer dor durante a micção. Algumas mulheres podem não sentir dores necessariamente. Parece ter relação com o tamanho ou extensão dos tecidos em crescimento. Pequenos retalhos de tecidos podem produzir prostaglandinas em quantidade suficiente para causar dor intensa. 

Diagnóstico 

A maneira mais segura de confirmar a doença é o exame de laparoscopia, que usa um tubo com luz na extremidade para ver dentro da cavidade pélvica. É um tipo de intervenção que requer anestesia e exige um pequeno corte para introdução da sonda de exame. A laparoscopia indica a localização dos tecidos endometriais, o tamanho das lesões e ajuda o ginecologista a definir o melhor tratamento. Ela é indispensável para afastar a hipótese de outras complicações que tem sintomas semelhantes aos da endometriose como a inflamação pélvica ou a síndrome do intestino irritável. Os ginecologistas recorrem a outras formas de diagnóstico antes da laparoscopia, em pacientes com suspeita de endometriose, entre elas o exame pélvico durante a menstruação e o ultra-som transvaginal. 

Dieta 

A endometriose pode ser controlada com tratamento. Entre os vários esquemas se incluem o cuidado com a dieta até a suspensão da menstruação. 

O uso de analgésicos como paracetamol ou ibuprofen é indicado para quem tem sintomas leves e não precisa se preocupar com a infertilidade. Para quem tem sintomas graves e planeja ter filhos a alternativa é a cirurgia conservadora de cauterização dos tecidos inflamados por meio da laparoscopia. Mulheres que não desejam ou não querem mais filhos podem controlar a endometriose com o uso de anticoncepcional oral ou injetável de progestogênio. Esta terapia interrompe a menstruação, levando o endométrio a atrofia por longo período, de meses até vários anos após sua interrupção. 

O tratamento com o hormônio GnRH, que imita o que o organismo produz naturalmente é uma alternativa para os casos de endometriose grave. A substância leva o organismo a entrar em uma espécie de menopausa controlada. 

Paralelamente aos tratamentos medicamentosos é fundamental manter uma dieta balanceada para corrigir deficiências de certos nutrientes e atenuar os sintomas da endometriose. As vitaminas, minerais e ácidos graxos essenciais obtidas por meio de uma alimentação adequada e de suplementos, quando for o caso, podem ajudar na recuperação da fertilidade e no alívio do processo inflamatório além de reduzir muito o sofrimento de quem convive com dor crônica, pois tais nutrientes melhoram substancialmente a resistência à dor. 

Características 

Existem vários graus ou estágios de desenvolvimento da endometriose, desde os casos mais leves, que não produzem quase sintomas aos mais dolorosos, com processo inflamatório, formação de cistos e cicatrizes. A relação abaixo pode ajudá-la a observar eventual suspeita da doença. Se tiver a experiência de mais de um desses sintomas durante o período menstrual ou de forma crônica procure seu médico para fazer os exames necessários. 

:: Dor pélvica ou durante a relação sexual 
:: Menstruações abundantes ou ciclos irregulares 
:: Vômito e náuseas 
:: Fadiga 
:: Problemas urinários 
:: Infecções frequentes 
:: Tontura 
:: Dor para defecar 
:: Dor na região lombar 
:: Problemas intestinais (intestino solto, perda de água, diarréia com vestígio de sangue) 
:: Febre baixa 

ENTENDA O SONICISION

::Uma nova técnica permite fazer a dissecção ultrassônica sem fio. Um dispositivo, chamado Sonicision, dá mais liberdade de movimento na sala de operações através da inovação da tecnologia sem fio. O aparelho também utiliza um controle único de ativação de energia dual mode para a transição suave entre dois modos de potência dentro de um único botão. Esta característica permite que os olhos do cirurgião permaneçam no campo cirúrgico, em vez de focar no instrumento 

Fonte: Paulo Ayroza, especialista em endometriose profunda 

SOBRE A ENDOMETRIOSE

:: A doença atinge 6 milhões de brasileiras, o que corresponde a mais de 10% das mulheres em idade reprodutiva 

:: Entre 30% e 40% das mulheres que sofrem de endometriose têm infertilidade 

:: O diagnóstico correto da doença pode levar até sete anos 

:: Uma pesquisa americana mostrou que 41% das mulheres que sentem cólicas menstruais fortes já desistiram de um emprego ou foram demitidas. Elas chegam a perder, em média, 86 horas de trabalho por ano por causa das dores provocadas pela endometriose 

:: Os fatores de risco são começar a menstruar muito cedo; nunca ter tido filhos; menstruações que duram sete dias ou mais 

Fonte: Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE) 


É IMPORTANTE SABER

É importante que o médico pense em endometriose sempre que tiver uma adolescente com queixa de cólica menstrual de forte intensidade, que não melhore com o uso de anticoncepcionais e anti-inflamatórios não hormonais e que apresenta uma história familiar positiva para endometriose 

TRATAMENTOS

:: Como tratamento existem várias opções, como uso de anti-inflamatórios não hormonais, anticoncepcionais combinados de progestógenos, hormônio liberador de estrogênio e progesterona, gonadotrofina (GnRH), sistema intrauterino com levonorgestrel e mais, recentemente, o dienogeste, que tem uma melhor eficácia para o tratamento da endometriose, com menor efeito colateral e diminuição dos focos endometrióticos, além do alívio dos sintomas 

:: O importante no tratamento clínico é que a paciente não menstrue, a fim de evitar a progressão da doença e ter alívio da dor com melhor qualidade de vida. Quando o tratamento clínico não é suficiente, para o alívio das dores é indicado o tratamento cirúrgico 

Fonte: DiárioWeb


 
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